Viu-se
recentemente mais um triste episódio envolvendo a situação que envolve os
governos subnacionais, desta vez no Estado do Rio de Janeiro, sem recursos para
pagamento de servidores, o governador Dornelles decretou Estado de Calamidade,
com sérias implicações para a população e para a política econômica que busca
um ajuste fiscal da magnitude de R$300 bilhões (R$170 de déficit aprovado para
2016 mais R$130 para a reposição de um primário modesto próximo a 2% do PIB).
É
preciso esclarecer primeiro, que os problemas aqui tratados, não se relacionam
com as chamadas pedaladas fiscais, uma trapaça contábil não autorizada entre
governo e bancos públicos, argumento muito utilizado pela retórica política
para justificar os problemas financeiros dos Estados, onde muitos governadores
não possuem sequer, participação acionária em bancos.
Feito
este parêntese, o Rio de Janeiro é um Estado pobre, que viveu muito além das
suas possibilidades graças à descoberta de novos campos de petróleo e do seu
atrativo preço internacional durante os anos 2000, cujo os dispositivos da Lei
n° 9478/97 garante 5% da produção em Royalties a serem distribuídos entre
governadores e prefeitos destas localidades.
No
que se refere ao impacto destes 5% na produção total de uma petrolífera, o
montante destinado ao pagamento de royalties pode parecer modesto, no entanto,
sob a ótica do caixa de governos estaduais e municipais, isto pode significar
em muitos casos uma importante fonte de receita, promovendo inclusive ilusão
fiscal.
A
noção de ilusão fiscal foi cunhada pelo italiano Amilcare Puviani (1903) em seu
tratado “Teoria della illuzione Finanziária”, é caracterizada pelo fenômeno do sobre dimensionamento dos benefícios do
governo em contraste com a subestimação de seus respectivos custos. Em
artigo publicado no dia 09/03 neste espaço tratei da ilusão fiscal nos
municípios, o momento é conveniente para tratar do assunto no âmbito dos
governos estaduais, já que os problemas que afetam o Rio de Janeiro, afetam
também inúmeros outros entes federativos.
A
inversão dos termos de troca nos anos 2000, não se restringiu aos royalties do
petróleo e, reforçaram o caixa dos governos estaduais, graças ao impacto
positivo sobre o ICMS, principal fonte de receitas de estados produtores de
commodities minerais e agrícolas, onde a situação também é crítica, graças a
inflexão desta tendência de alta a partir de 2013 e a crise econômica posta.
No
que tange o endividamento, as situações mais dramáticas contemplam RS, MG, RJ,
AL e SP, com a relação Dívida/RCL próxima a 2, limite estabelecido pela
Resolução 40/2001 do Senado como limite para endividamento dos Estados.
O
crescimento das receitas de caráter efêmero nestes Estados, omitia um problema
a partir do momento em que estes recursos eram canalizados para despesas de
caráter permanente, como expansão dos gastos com folhas de pagamento, como
comprovam o amplo avanço dos gastos com pessoal rumo ao limite descrito na LRF,
os Estados do RS, MS, MG, PB, GO e RJ já ultrapassaram, MT e RR estão bastante
próximos.
Além
do colapso das finanças públicas dos Estados, expressas no seu endividamento,
três problemas surgem com a ilusão fiscal:
1°
Impacto macro do resultado do superávit primário dos Estados, que recuou em
2012 de R$19 bilhões para um déficit de R$9,5 bi em 2014 e novamente um
superávit primário menor de R$6,5 em 2015, afetando o agregado.
2°
O esforço fiscal realizado pelos governos estaduais, de magnitude de R$16
bilhões entre 2014 e 2015 se deu principalmente em prejuízo dos investimentos
públicos que recuaram 36% no período, com consideráveis impactos recessivos.
3°
Sub provisão de bens públicos essenciais. Os impostos são, segundo a Nova
Economia Política, o preço pelo qual a população paga por serviços públicos, na
presença de ilusão fiscal (causada em parte pelo ciclo das commodities), é
comum que estes recursos deixem de atender o eleitor mediano e passem a favorecer os rent seekings e o burocrata
maximizador.
No
que se refere aos rent seekings que
são grupos politicamente organizados com acesso à benefícios do orçamento, seja
pela pressão, seja pela capacidade de influência. É plausível constatar o
aumento de gastos com assembleias legislativas, segundo o FINBRA, no acumulado
em 10 anos as despesas saíram de R$9,5 bilhões em 2004, para R$13,6 em 2014,
curiosamente os estados que mais gastam com seus legislativos são
respectivamente RJ, SP, MG e RS, que apresentam sérios problemas financeiros.
Além
disto, crescente gasto com burocracia, onde segundo Boletim de Finanças Sub
Nacionais do MF, entre 2009 e 15, oito estados aumentaram seus gastos com
pessoal em mais de 50%, são eles respectivamente, RJ, SC, RR, TO, PI, PA, MT e
MS, despesas estas que persistem no caixa dos governos estaduais por décadas,
além disso, RS, MS, MG, PB, GO e RJ possuem gastos acima dos 60% previstos na
LRF.
A
União tem uma parcela de culpa, graças ao programa de desonerações setoriais
concedidos anteriormente e que custaram 2% do PIB, parte destas renuncias
compunham o FPE, deve portanto socorrer de forma equilibrada os governos
estaduais, a final, não é justo o contribuinte do ES pagar pelos privilégios do
servidor do RJ, no entanto é preciso fazer algo, cobrar contrapartidas, metas
de redução de gasto com folha de pagamentos e metas de produtividade, além de
um bom momento para se colocar na mesa de negociações a reforma do ICMS.




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