Publicado no Jornal Correio de Uberlândia em 06/10/2016
O
Brasil passou nos últimos 3 anos por um momento muito peculiar da sua história,
uma combinação perversa de crise política, pautada pelo derretimento do modelo
representativo atual, crise econômica flagrada pelo fracasso do modelo nacional
desenvolvimentista e crise moral evidente nos eventos da operação Lava Jato.
Este conjunto de crises, denominado pelo ex ministro Maílson da Nóbrega como
Tempestade Perfeita, foi o grande responsável pela ampliação do mal estar material
caracterizado por 11,5 milhões de desempregados, 59 milhões de inadimplentes, e
por uma queda real da renda per capta dos brasileiros em 10% neste período.
Depois
da tempestade vem a bonança, diz a sabedoria popular, em se tratando de Brasil
no entanto, nem sempre é assim, isto pode ficar evidente com o resultado das
eleições municipais realizadas no dia 02 de outubro. O PT, como já era esperado,
foi o partido que mais perdeu nestas eleições, está cambalido e o seu potencial
de oposição está bastante restringido à manipulação de alguns sindicatos ou
movimentos sociais de esquerda contra o governo Temer.
O
grande problema que pode surgir e, de certa forma vai surgir num futuro breve,
deverá se dar a partir do relacionamento entre os agora aliados PMDB e PSDB. Os
tucanos, como mostram os números, foram os grandes vencedores destas eleições,
o que já era razoavelmente plausível, dado que se colocou durante 15 anos como
uma alternativa à dominância petista. O crescimento do PSDB se deu em termos quantitativos,
ou seja, elevando em mais de 15% o total de prefeituras, mas também em termos
qualitativos, uma vez que fez o prefeito de São Paulo, sendo ainda favorito
para os prefeitos de Manaus, Belo Horizonte, Belém e Porto Alegre, ou seja,
consolidado em grandes centros de praticamente todas as regiões do país.
Do
outro lado está o PMDB, partido do presidente Michel Temer, tradicionalmente o
líder em prefeituras no Brasil, mas com a presença muito mais localizada em
pequenos municípios do interior do país. Embora diga que não é candidato à reeleição,
o presidente Temer é visto com desconfiança pelos agentes políticos, primeiro
por que teve papel ativo na articulação do impeachment de sua colega de chapa, segundo
por que é considerado excessivamente pragmático em seu conjunto de alianças
políticas e terceiro por ser muito pouco convicto de suas medidas
administrativas à frente do governo.
Estando
o PT enfraquecido em sua capilaridade, sem discurso para o eleitor e confinado
em uma votação inferior a 20% dos votos, tudo leva a crer que o duelo de 2018
se dará entre PSDB e PMDB (ou alguma sigla que emerja do grupo de apoio do
presidente Temer, como o PSD do ex ministro Kassab). O grande problema deste
provável duelo é que as eleições deste ano o antecipou para dois anos antes da
eleição presidencial, e a força que emergiu com mais potencial na seara tucana
foi a do Governador Geraldo Alckmin, exatamente o líder tucano mais distante do
presidente Temer.
Isto
demonstra que, num futuro breve, na ausência das reformas econômicas prometidas
por Temer, mas não implementadas até aqui, o que deve desanimar gradualmente o
mercado hoje tido seu aliado, pode-se esperar o desembarque do
PSDB do governo, com vistas à eleição, o que inviabilizaria qualquer reforma emergencial para que a
economia brasileira cresça, criando uma nova tempestade perfeita para o
horizonte futuro.




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