Publicado na Revista Cult em 19/12/2016
Quem
acompanha os noticiários internacionais, tem a sensação de que o período em que
vivemos será estudado pelos historiadores do futuro. Não se sabe ainda, mas já
se especulam, quais as implicações futuras, das decisões chanceladas pelo voto
nas democracias desenvolvidas e, as perspectivas não são boas. Me refiro
especificamente à vários movimentos acontecendo simultaneamente na Europa e nos
Estados Unidos que, colocam em risco, instituições erguidas nos anos 1970 e
1980 que criaram um enorme ciclo de inovações tecnológicas, prosperidade e bem
estar, jamais vista na história mundial.
É
natural que exista uma defasagem temporal entre mudanças de paradigmas
mundiais, que são influenciados primeiramente pela insurgência no mundo das
ideias e, em seguida a refletem nas ações políticas. Aparentemente, o momento
em que as ideias se tornaram influentes passou enquanto acadêmicos e os
burocratas dos países desenvolvidos se ocupavam salvando o ocidente dos
impactos do sub prime, enquanto isso,
se consolidava no mundo do pensamento o ideário anti capitalista e desglobalizante,
além do ressurgimento de teses nacionalistas, protecionistas, isolacionistas
que, achávamos, já vencidas tanto no campo das ideias, quanto no campo da ação.
A
ressurreição destas teses se deu, principalmente com os impactos da crise de
2008, onde a disputa pela narrativa ganhou impulso, deslocando o eleitor
mediano dos países desenvolvidos das preferências de centro, para as extremas.
Isto ficou claro a partir da eleição da extrema esquerda com Aléxis Tsíripas,
que por pouco não redundou na saída da pequena Grécia da União Europeia,
causando um enorme pânico quanto ao futuro do Bloco e do Euro. Não são fatos
isolados, vimos um movimento similar no Brexit, e agora na eleição americana
onde, diferentemente da Grécia, quem venceu foi a direita populista e não a
esquerda.
Quem são os
Populistas?
Populistas,
independentemente de sua orientação ideológica de direita ou de esquerda, ou da
sua localização geográfica, possuem mais semelhanças do que diferenças (pautadas
predominantemente pelo excessivo teor moral de suas pautas, como aborto, porte
de armas, imigração etc...), entre as semelhanças, tem-se um ideário político e
econômico pautado em três premissas:
1°
- Desprezo seletivo à democracia:
principalmente do ponto de vista retórico, apelam ao culto ao Líder, somado
ataques à liberdade de imprensa, à instituições de Estado como judiciário e
legislativo, e intolerância quanto ao contraditório e à oposição. Isto
evidentemente acirra os ânimos nacionais, produzindo um excessivo ambiente de
radicalidade do público.
2°
- Expansionismo fiscal: partindo
exclusivamente da premissa que o baixo crescimento econômico e o desemprego é
culpa do livre mercado e, portanto, o incentivo ao crescimento deverá vir com o
aumento do controle do governo sobre atividades “estratégicas” e com a expansão
de investimentos públicos. Evidentemente que esta estratégia envolve um custo
elevado sobre a dívida pública e alta da taxa de juros, cujo os impactos sobre
o crescimento econômico são questionáveis.
3°
- Restrição ao comércio global: por
este raciocínio, a culpa pelo desemprego e pela estagnação doméstica, é do
comércio, que beneficia “ricos” em prejuízo de “pobres”, gera empregos em outros
países em prejuízo da economia nacional e, portanto é preciso romper com o
comércio internacional, protegendo a produção doméstica e reservando mercado
para voltar a prosperar internamente. Seria ótima ideia, não fosse pelo impacto
negativo destas teses sobre a produtividade local, produzindo portanto um
efeito oposto sobre o crescimento, o emprego e os preços.
Qual o risco da
ameaça populista para o mundo?
Levando
em conta estas três características próprias de regimes populistas, há pouca
diferença entre as crenças, por exemplo, de Hugo Chávez e Donald Trump. Com um
agravante, não se trata mais de um fenômeno restrito à países da América do Sul
ou à Grécia, este é um processo que se amplificou pelo mundo, e tornou-se uma
escolha social viável das democracias ocidentais, chanceladas no Brexit, pela
eleição de Trump, e pelo avanço da extrema direita e esquerda em vários países
europeus, questionando o modelo econômico que gerou 40 anos de prosperidade no
mundo.
As instituições soerguidas nos governos Thatcher e Reagan, foram responsáveis pelo amplo crescimento econômico no hemisfério norte, pelo desenvolvimento de nações no sudeste asiático, do oriente médio e, pela estabilização das hiperinflações na América do Sul. Ficaram de fora desta onda de prosperidade, países de tendências isolacionistas e estatizantes como a Rússia.
Agora,
é para direção contrária ao modelo liberal de Thatcher e Reagan que as
democracias ocidentais estão conduzindo e, as implicações disto são
preocupantes. Primeiro por se tratar de um movimento generalizado nos países
desenvolvidos, o que significa que, uma possível política isolacionista, por
exemplo, americana, geraria uma inevitável resposta protecionista na Europa ou
Ásia, o que desabaria o já capenga comércio internacional e, com isto, as taxas
de crescimento global. Segundo, esta extensão da crise econômica, patrocinada
pela aventura protecionista, pode significar um risco para as democracias
ocidentais, uma vez que há constatação empírica de que o mal estar econômico,
influencia o comportamento do eleitor, e dão musculatura à movimentos políticos
de extremos. Estas experiências redundaram em ditaduras e guerras no passado.
E os impactos para
o Brasil?
Os
impactos destes movimentos para a América Latina de forma geral e, para o
Brasil de forma específica são indiretos, porém não menos graves. Isto por que
nestes países, as exportações são um importante elemento de demanda e, dado que
são predominantemente exportadores de commodities,
dependem da expansão do comércio global para fomentar seu crescimento, seja
pela evolução dos preços, seja pela expansão dos quantum. Um período protecionista, portanto, reduziria muito o
potencial de crescimento dos países do Mercosul e do Brasil.
Um
segundo fator de prejuízo do populismo expresso na eleição de Trump para a
economia global e, para a economia brasileira, está nos movimentos prováveis da
taxa de juros americana. É sabido que os líderes do Partido Republicano são críticos
da política de quantitative easing do
presidente Barack Obama, isto significa que, o FED tende a antecipar a elevação
da taxa de juros e, inaugurando com isto, um movimento de canalização de
capitais que financiam déficits em Balanços de Pagamentos do resto do mundo
para os EUA.
Este
movimento deve significar uma elevação das taxas de juros em todo o mundo. O
principal problema será para países, como o Brasil, com taxas de juros já
elevadas para parâmetros internacionais, o que deve causar dois impactos macro
mais relevantes: primeiro, retardar o processo de queda da taxa de juros da
economia brasileira, fundamental para reaquecer o mercado de trabalho e o
crescimento e, segundo, súbito processo de desvalorização continuada da taxa de
câmbio, provocando um choque de custos nas firmas brasileiras, elevando assim a
inflação.
Isto
significa que, caso Donald Trump cumpra o que prometeu, a já comprometida
recuperação da economia brasileira, pela morosidade no apetite de reformas
necessárias pelo Governo Temer, estará ainda mais comprometida. Em resumo, a
conjuntura mundial está tomada pela imprevisibilidade e, a princípio, os
impactos disso para a economia brasileira, que precisa urgentemente do
crescimento, tendem a ser muito ruins.





Benito, não gosto de Trump, nem Bolsonaro, entre outros mitos da pseudo direita, mas acho que a economia global já está consolidada. Qualquer que se fechar tentando desenvolver em seu território toda a economia, vai perder competitividade. A economia não aceita amadores. Ou esses líderes se ajustam, como foi na Grécia, ou afundam seus países. E isso vale até para o poderoso Estados Unidos. Pessoalmente, creio que esse País vai perder o protagonismo mundial para a China, a Rússia e, talvez, a União Européia.
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