Publicado nos Jornais Gazeta de Uberlândia e Diário do Comercio em 21/04/2017
Desde
o impeachment, o Brasil vem experimentando um flagrante processo de queda na
taxa de juros, no intervalo de um ano a contar desde abril de 2016, a taxa
SELIC foi reduzida em 3 pontos percentuais, saindo de 14,25% para os atuais 11,25%.
Este movimento consiste numa das mudanças mais bruscas da política monetária
desde que o Brasil adotou o regime de metas de inflação em 1999. Mas o que de
fato está por trás deste movimento?
Evidentemente
que os fatores condicionantes a esta queda, são a rápida convergência da
inflação para o centro da meta (provocada pela recessão ainda em curso), somada
ao realinhamento dos preços administrados realizados em 2015, tudo isso somado
à aprovação ano passado da PEC do teto dos gastos que despertou um otimismo de
longo prazo quanto a capacidade de solvência do governo federal. Este é,
portanto, o tripé da queda na taxa de juros da economia brasileira e que a
diferencia portanto, do movimento de queda praticado em 2011, durante o governo
Dilma, onde a combinação de políticas fiscais e monetárias frouxas estabelecia
uma perspectiva de inflação futura acima do teto da meta, o que não se deu
exatamente pelo represamento de preços públicos.
No
entanto, a política fiscal frouxa ainda permeia a ação política no Brasil, e
está evidente na elevação da previsão do déficit primário de 2018, antes
previsto em R$79 bilhões e agora revisto para R$129 bi. Além disso, a promessa
de um ajuste fiscal de longo prazo proposta pela PEC do teto de gastos, vai se
esvaziando conforme a capacidade do governo de aprovar reformas (como a da
previdência) vai se tornando evidente. Diante disso, o Banco Central se move
rapidamente para tentar apagar o incêndio da crise política, tentando criar uma
agenda econômica positiva, apostando que uma queda rápida e aguda na SELIC pode
promover uma melhora no crescimento.
Mas
qual o real alcance desta estratégia?
A
primeira questão a se levantar é que, um avião não é capaz de voar se apenas
uma de suas turbinas estiver funcionando. Da mesma forma, o Brasil não voltará
a apresentar bons resultados econômicos ancorados meramente em estímulos do BC,
por várias razões:
Primeiramente
devido ao fato de que o principal mecanismo de transmissão da política
monetária, o crédito, está diante de uma séria obstrução, a grande
inadimplência das pessoas físicas e jurídicas herdada da Nova Matriz
Heterodoxa, torna praticamente nula a demanda por crédito no país, ainda que
haja uma maior oferta. Portanto, o expansionismo monetário hora vigente, exerce
seus efeitos conhecidos na valorização dos ativos financeiros e no câmbio, mas
no que se refere ao seu principal objetivo, a indução ao crescimento via
crédito, ele falha.
Além
disso, a operacionalidade da política monetária, prevê um timing de 6 a 9 meses
entre o movimento na taxa básica de juros e os movimentos nos demais agregados
monetários. Logo os efeitos da primeira queda na taxa de juros (0,25 p.p.) em
outubro de 2016, irão começar a fazer efeito apenas agora, enquanto que as
quedas mais robustas vistas ao longo do começo deste ano, teriam efeitos apenas
no final de 2017. Com este timing, talvez o hidrante da política monetária seja
incapaz de apagar o incêndio da crise política que ameaça o governo.
Em
terceiro lugar, existe a própria limitação da capacidade da taxa de juros de juros
em criar crescimento econômico, e da existência de uma taxa real de longo prazo
na economia, ou seja, num mundo de Lucas (1976), cujas expectativas são
racionais e os agentes fixam preços olhando para o futuro, o BC tem pouca, ou
nenhuma influência sobre o crescimento econômico, visto que este comportamento
depende de um produto natural de longo prazo.
Em
jogo, pesa a credibilidade da equipe econômica como um todo, cujo trabalho até
aqui, produziu otimismo nos agentes quanto a solução do problema fiscal
expresso ne PEC dos gastos e na perspectiva da reforma da previdência, sem
esta, é questão de tempo para que a inflação volte a pressionar e os juros
voltem a subir.





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