Publicado no Jornais Diário do Comércio e Gazeta em 19/05/2017
Primeiro
surge a grande bolha, em seguida surge o grande consenso sob idias vendiam a
possibilidade de desenvolvimento na ausência de sacrifícios, com isto surge a
grande euforia, pautada no discurso ufanista estruturado no jargão “nunca antes”,
após tudo isso surge o choque de realidade, e com ele surge a grande frustração,
seguido pela grande crise que promove um grande mal estar, e após demorados anos
surge o grande pessimismo e em meio a tamanha tragédia, vivemos hoje a morte
das utopias.
A
morte das utopias emerge num momento em que o ano de 2017 se dá como outro ano
perdido, outro entre tantos em meio a nossa história recente, é possível que
estejamos diante de uma década perdida, em aspectos econômicos com certeza
será, dado que nossas médias de crescimento estão condenadas a um desempenho
próximo de 1% ao ano. O custo em termos de desemprego, queda na renda e mal
estar material promovido por um desempenho tão medíocre em uma década, parece
alto no curto prazo, dado que estes fatores interferem diretamente na nossa
qualidade de vida e cidadania. No entanto, este custo se torna desprezível num
horizonte de longuíssimo prazo, de 50 ou 60 anos, se sob os aspectos dos
valores, os aprendizados com a crise atual, migrar este período de uma década perdida,
para uma década encontrada.
No
último dia 31/03 ocupei este espaço escrevendo um artigo intitulado “A
armadilha da meia melhora”, nele alertava sobre os riscos de um pequeno alívio
econômico que se punha no início deste ano, estar acompanhada de uma anestesia
política que não alterasse o nosso comportamento social no campo dos valores.
Em outras palavras, disse que uma meia melhora econômica desacompanhada de uma
considerável melhora nos hábitos e na administração pública, seria apenas um
intervalo temporal entre a crise atual e a próxima, dados que os fundamentos da
patologia que atiraram o país na maior depressão da história, não estavam em
conteste.
Hoje,
pouco mais de 6 semanas desde a publicação do supracitado artigo, acompanhamos
com espanto (mas não surpresa), o flagrante que envolve o presidente em exercício
e um dos principais presidenciáveis para as eleições de 2018 em um esquema repugnante
de chantagem, propina e obstrução da justiça. Diante da podridão que veio à luz
esta semana, uma conclusão, o intervalo entre a crise atual desenhada na “Armadilha
da meia melhora” e a próxima crise, foi curto, e a meia melhora antes anunciada
cederá espaço para uma grande piora, e tudo isto tem como principal causa a
morte das utopias.
É
preciso ressuscitar as utopias para que o país volte a ter esperança, isso só
será possível, se a melhora econômica vier precedida de uma melhora nos valores
cultivados socialmente, mas quais são eles?
O
primeiro valor a ser perseguido pela sociedade emergente é a democracia como
valor inegociável. Além deste, a defesa das liberdades individuais, que incluem
liberdade de imprensa, fundamental na divulgação e no registro de tudo que está
sendo passado a limpo, mas também as liberdades de expressão e de livre
iniciativa. Devemos ainda perseguir como valores a ética e a moralidade na vida
pública, são aspectos distintos, no que se refere a primeira, tem-se o rigoroso
cumprimento das leis (desde o código penal, até as simples leis orçamentárias
que foram desrespeitadas por aqueles que se julgam acima da lei), no que se
refere a segunda, tem-se aquilo que é permitido pela lei, mas não é moral, ou é
tido como privilégio aos olhos de quem está de fora (supersalários, por
exemplo). É preciso ter isonomia de regras e oportunidades, privilegiar a
meritocracia frente aos lobbys. E finalmente é preciso que o governo seja
institucional, com papéis bem definidos para cada instituição e que tais
instituições sejam guardiãs de princípios e valores e não de interesses
particulares como hora acompanhamos com desgosto nos noticiários.





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