A
decepção foi quase tão grande como a surpresa de dormir na quinta feira 23/06
com todas as pesquisas apontando para a permanência do Reino Unido na União
Europeia e acordar, na sexta, com o país da rainha fora, ainda que por uma
tímida margem e votos.
A
UE surge em 1992 (Tratado de Maastricht) como resultado de uma união
alfandegária iniciada em 1957 (Tratado de Roma), sendo aprimorado ao longo das
décadas, através da gradual redução do protecionismo dos Estados nacionais
preparando o que se tornou o mais bem sucedido projeto de livre circulação de
bens e fatores (capital e trabalho) que já se conheceu.
Do
ponto de vista histórico foi um considerável avanço no sentido a estabilizar um
continente marcado por séculos de guerras e disputas por territórios que
sacrificaram milhões de vidas, já do ponto de vista geopolítico, significava a
única maneira da Europa garantir alguma relevância diante do avanço das
potências asiáticas: Japão, China e Rússia.
Do
ponto de vista macro significou uma arquitetura inovadora, iniciada com o
alinhamento das taxas de câmbio e em seguida com as taxas domésticas de
inflação dos participantes, visando posteriormente a criação da União Monetária,
criando a moeda única e uma instituição para guardar toda a regulamentação do
sistema financeiro europeu, surgem portanto em 1999 o Euro e o Banco Central
Europeu BCE, cujo a tarefa é guiar a inflação do bloco para a meta. Ficaram de
fora da União Monetária apenas o Reino Unido e a Dinamarca.
Em
2008 a crise financeira que se abateu sobre o mundo desenvolvido, colocou em
risco a sobrevivência da moeda única, já que alguns países periféricos se
valeram da facilidade em contrair endividamento para custear seu welfare state combinados com políticas anticíclicas
para atenuar os efeitos recessivos que perduram até hoje, desnudaram a
fragilidade da estratégia de se extinguir a política cambial, unificar a
política monetária sem que houvesse uma prévia unificação da política fiscal.
Como
agora, na ocasião surgiram teorias e críticas de várias naturezas, em países
pobres (os PIIGS) com problemas fiscais, viam crescer teses populistas de
direita e de esquerda cujo a esquizofrenia do discurso nacionalista, atribuía,
quando não ao livre mercado, aos alemães e franceses a culpa pelas décadas em
que viveram além de suas possibilidades. A instabilidade foi levada ao limite
na crise da Grécia onde na última hora encontrou-se uma solução negociada e o
Euro sobreviveu.
Agora
outro duro golpe na construção de uma Europa unificada, vindo de onde não se
esperava, a saída de um importante membro que embora não participasse da União
Monetária, era a segunda economia do bloco, que decidiu abandonar por um misto
de nacionalismo xenofóbico contra a presença do imigrante árabe somado a uma
falsa sensação de submissão à Alemanha.
Com
a saída britânica se instaura o temor quanto a um possível efeito manada de países
que desejem abandonar o bloco, colocando em risco o futuro do Euro, mais uma
vez a liderança de Ângela Merkel deverá ser posta à prova, conciliando a
chegada de milhares imigrantes com o sentimento racista que tem sido de forma
oportunista disseminado pela extrema direita europeia. Quanto aos britânicos,
serão vítimas de sua própria escolha, estarão de fora do maior mercado consumidor
do mundo, num jogo onde todos perdem, o eleitor britânico escolheu perder mais
do que os outros.




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